A visão de jovens sobre o tráfico: trabalho ou crime, diz juíza do Rio


Vanessa Cavalieri destaca a falta de alternativas para adolescentes em situação de vulnerabilidade social

A visão de jovens sobre o tráfico: trabalho ou crime, diz juíza do Rio
Vanessa Cavalieri, juíza da 1ª Vara da Infância e Adolescência do Rio de Janeiro. Foto: Karime Xavier/Folhapress

Juíza do Rio revela que para muitos jovens, tráfico é visto como uma alternativa de trabalho diante da falta de oportunidades.

A visão de jovens sobre o tráfico: trabalho ou crime

No contexto atual do Brasil, a juíza Vanessa Cavalieri, responsável pela 1ª Vara da Infância e Adolescência do Rio de Janeiro, afirma que para muitos adolescentes, o tráfico de drogas não é encarado como crime, mas sim como uma forma de trabalho. Essa afirmação destaca uma grave realidade social em que a falta de alternativas adequadas deixa os jovens vulneráveis ao recrutamento pelo crime organizado.

Realidade do tráfico entre adolescentes

Cavalieri, que tem uma vasta experiência à frente da vara, observa que a maioria dos jovens que chegam até ela proveniente de um contexto familiar desfavorecido. Segundo ela, 95% dos adolescentes têm pai ausente, o que contribui para a falta de perspectivas de inserção social. A ausência de um modelo paterno é um reflexo de problemas sociais mais amplos, como a pobreza e a falta de políticas públicas. “Não adianta ter o nome na certidão se o pai nunca esteve presente na vida da criança”, ressalta a juíza.

Fatores que impulsionam o envolvimento no crime

A magistrada acredita que o envolvimento precoce de adolescentes no tráfico é uma consequência de um ciclo vicioso de abandono escolar, desemprego e exclusão social. Ela observa que muitos jovens que entram no tráfico o fazem devido à falta de opções viáveis, como educação e emprego. “O tráfico se torna a única estrutura que oferece pertencimento e renda”, afirma Cavalieri, que também critica a distorção social que atribui a maternidade de muitos filhos à política do Bolsa Família.

A exploração do trabalho infantil no tráfico

No ambiente do tráfico, os adolescentes frequentemente ocupam funções que exigem pouco ou nenhum treinamento. Eles atuam como ‘vapor’, responsáveis pela venda de drogas, ou ‘radinho’, que alerta sobre a presença da polícia. Cavalieri observa que esses jovens trabalham longas jornadas de até doze horas e recebem uma remuneração muito baixa, refletindo a exploração do trabalho infantil nesse contexto.

Desafios enfrentados por jovens em reintegração

Quando adolescentes são apreendidos, Cavalieri acredita que esse momento pode ser uma janela de oportunidade. Ela afirma que, se aplicadas corretamente, as medidas socioeducativas podem ter um impacto positivo na reintegração desses jovens. Contudo, ela destaca que a falta de oportunidades e a resistência das escolas em acolher esses adolescentes dificultam ainda mais o processo de reintegração. “As escolas muitas vezes não querem receber esses jovens, e isso contribui para a exclusão”, diz.

A necessidade de um engajamento coletivo

A juíza conclui que o enfrentamento do problema do tráfico entre os jovens requer um esforço conjunto da sociedade e do Estado. “O empresário precisa entender que a responsabilidade pelo futuro desses jovens é também dele”, afirma. Para ela, acreditar que o Estado pode resolver todos os problemas sozinho é um engano, e ações coletivas são essenciais para mudar a realidade desses adolescentes que veem o tráfico como a única opção disponível.

A discussão sobre o papel do tráfico na vida dos jovens é um tema complexo que envolve questões sociais profundas. A abordagem de Cavalieri pode servir como um chamado à ação para que a sociedade repense suas responsabilidades e busque soluções efetivas para enfrentar esse problema crônico.

Fonte: www1.folha.uol.com.br

Fonte: Karime Xavier/Folhapress


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