Investigação revela como facções se expõem e tentam regularizar atividades ilícitas

Facções no Rio de Janeiro exploram redes sociais para exibir ostentação e promover apostas ilegais.
Traficantes do Rio e o uso de redes sociais para apostas ilegais
No Rio de Janeiro, a utilização de redes sociais por traficantes para promover apostas ilegais tem sido alvo de investigações. Alexandre Germano da Conceição Ferreira, conhecido como “Cocão da Serrinha”, é um dos principais líderes do TCP (Terceiro Comando Puro) e usa seu perfil no Instagram para exibir uma rotina repleta de ostentação, incluindo roupas de marca e atividades criminosas, acumulando 40 mil seguidores.
Cocão não tem antecedentes criminais significativos, mas foi denunciado em vários processos relacionados a crimes graves. Em suas postagens, ele promove apostas ilegais que, segundo a Polícia Civil, são utilizadas para lavagem de dinheiro. As investigações também buscam entender se há tentativas de legalizar empresas para operar esses jogos como um braço financeiro do tráfico.
O impacto das redes sociais na criminalidade
O fenômeno de traficantes se exibindo nas redes sociais não é isolado. A prática se tornou comum entre facções, que utilizam essas plataformas como uma forma de marketing para melhorar sua imagem na sociedade. O subsecretário de inteligência da Secretaria de Segurança Pública, Pablo Sartori, descreve essa abordagem como uma estratégia de marketing, onde os grupos tentam se apresentar de forma atraente para a comunidade, mesmo que de maneira não profissional.
Além das apostas, as redes sociais têm sido usadas para exibir armas, celebrar a vida de jovens mortos e promover eventos como bailes funk. A exposição digital parece ter um apelo especial para os jovens que, atraídos pela ostentação, acabam se envolvendo com o tráfico. Famílias de adolescentes relatam tentativas frustradas de impedir a entrada de seus filhos nesse mundo, que é frequentemente glorificado nas redes sociais.
Consequências e respostas das autoridades
A resposta das autoridades tem sido intensa. Nos primeiros meses deste ano, 45 empresas que atuavam no mercado irregular de apostas foram encerradas, e diversas páginas e publicações de influenciadores foram removidas das redes sociais. A Meta, responsável pelo Instagram, afirma que não permite o uso de suas plataformas para atividades criminosas e que trabalha em colaboração com as autoridades para remover conteúdo ilegal.
Recentemente, após questionamentos da imprensa, a plataforma retirou o conteúdo de Cocão. No entanto, mesmo sob monitoramento, muitos traficantes continuam a postar sobre suas rotinas, utilizando as redes sociais como um canal de comunicação e marketing.
A psicologia por trás da ostentação
A psicóloga forense Patrícia Barazetti explica que a relação entre a criminalidade e a exposição digital está profundamente enraizada na psique dos indivíduos envolvidos. Segundo ela, a busca por reconhecimento e status social leva muitos a se expor nas redes, muitas vezes ignorando as consequências de seus atos. Essa ostentação não apenas preenche um vazio identitário, mas também cria um ambiente onde a impulsividade e a falta de autorregulação se tornam comuns.
A cultura digital amplifica esse comportamento impulsivo, proporcionando uma gratificação imediata que muitas vezes supera o medo da punição. Os mecanismos cerebrais envolvidos no prazer da exibição são semelhantes aos que levam ao uso de drogas e ao envolvimento com atividades ilícitas, como apostas.
Desafios futuros
Com a crescente utilização das redes sociais por facções criminosas, as autoridades enfrentam o desafio de desenvolver estratégias mais eficazes para combater essa nova forma de marketing do tráfico. A interação entre criminalidade e tecnologia demanda um olhar atento para as dinâmicas sociais contemporâneas, especialmente entre os jovens, que são frequentemente seduzidos pela vida glamourosa apresentada nas mídias digitais. O combate ao tráfico e ao jogo ilegal no Brasil passa a exigir não apenas ações punitivas, mas também intervenções sociais que possam oferecer alternativas viáveis e atraentes ao público jovem.
Fonte: www1.folha.uol.com.br
Fonte: AFP








