Pesquisador desafia versão histórica e traz novo protagonista ao cenário do futebol

Pesquisa revela que Miguel do Carmo foi o primeiro jogador negro do futebol no Brasil, desafiando versões anteriores.
A Ponte Preta e seu legado no futebol brasileiro
A Ponte Preta, tradicional clube de Campinas, é reconhecida por ter escrito um capítulo importante na história do futebol brasileiro. De acordo com a pesquisa do historiador José Moraes dos Santos Neto, Miguel do Carmo foi o primeiro jogador negro a atuar no futebol nacional em 1900. Essa informação foi revelada recentemente e contraria a narrativa estabelecida por Mário Filho em seu clássico “O negro no futebol brasileiro”, que atribuía esse título a Francisco Carregal, do Bangu, em 1905.
A pesquisa que mudou a história
Santos Neto, que desenvolveu seu trabalho no Centro de Memória da Unicamp, baseou sua pesquisa em documentos da Câmara Municipal de Campinas. Ele argumenta que Miguel, filho de escravizados e trabalhador da Companhia Paulista de Estrada de Ferro, foi um dos fundadores do primeiro time da Ponte Preta aos 15 anos. “Ele participou de maneira amadora, como um garoto, da fundação da equipe”, explica o historiador. Essa descoberta não apenas resgata a memória de Miguel, mas também desafia a visão tradicional sobre a inclusão de negros no esporte.
Contexto histórico e social da época
Na época em que Miguel do Carmo começou sua trajetória no futebol, muitos clubes impunham regras que proibia a presença de jogadores negros. Contudo, a Ponte Preta se destacou por sua inclusão, refletindo os ideais de igualdade que permeavam o proletariado da época, influenciado por imigrantes anarquistas. Santos Neto ressalta que a aceitação de Miguel no time se deu em um contexto onde o esporte era predominantemente elitizado em outras partes do Brasil.
A longa espera por reconhecimento
Apesar de seu papel pioneiro, a Ponte Preta levou mais de um século para eleger seu primeiro presidente negro, Sebastião Arcanjo, em 2019. Esse fato evidencia a persistência de desigualdades no esporte e na sociedade brasileira. A história de Miguel do Carmo, embora tenha sido ofuscada por muito tempo, agora emerge como um símbolo de resistência e luta contra o racismo.
Legado e memória familiar
Raquel do Carmo, neta de Miguel, expressou surpresa ao descobrir a importância de sua família na história do futebol. “Nunca imaginamos que ele foi o primeiro negro, foi uma surpresa”, afirmou. Apesar da falta de registros fotográficos e documentais, o interesse pelo futebol permaneceu na família, com três bisnetos de Miguel tentando carreiras profissionais no esporte. Lucas do Carmo, um dos bisnetos, se tornou analista tático, mantendo viva a herança de seu bisavô.
Uma história que ecoa pelo mundo
Em 2003, Santos Neto enviou uma carta à FIFA relatando sua descoberta, que gerou reconhecimento internacional. Em resposta, a organização elogiou os esforços para integrar e combater a discriminação no futebol. Essa história de inclusão e superação continua a inspirar e a desafiar as narrativas históricas estabelecidas, mostrando que o futebol é um reflexo da sociedade e suas transformações.
Conclusão
A história de Miguel do Carmo é um testemunho da luta contra o racismo e a busca por igualdade no futebol brasileiro. Sua trajetória não apenas ilumina o passado, mas também convida a uma reflexão sobre o presente e o futuro do esporte no Brasil, onde ainda há muito a ser feito para garantir a diversidade e inclusão em todas as esferas.
Fonte: www1.folha.uol.com.br
Fonte: Divulgação








