Fósseis de 3,4 milhões de anos revelam novos homíninios na Etiópia


Descoberta de ossos e dentes ajuda a entender evolução humana e coexistência de espécies

Fósseis de 3,4 milhões de anos revelam novos homíninios na Etiópia
Conjunto de ossos fósseis de dedos humanos. Foto: Conjunto de ossos fósseis de dedos humanos dispostos sobre fundo preto.

Fósseis de 3,4 milhões de anos são de homíninios que conviveram com a espécie de Lucy, revelando detalhes da evolução humana.

Fósseis de 3,4 milhões de anos revelam novas perspectivas sobre a evolução humana

Cientistas solucionaram um mistério envolvendo fósseis de 3,4 milhões de anos descobertos em 2009 na Etiópia, identificando-os como pertencentes ao Australopithecus deyiremeda. Este achado foi descrito em um artigo publicado na revista Nature no dia 26 de setembro. Os pesquisadores chegaram a essa conclusão após a análise de 25 dentes e da mandíbula de uma criança de quatro anos e meio.

Os ossos de pé, encontrados no local chamado Burtele na região de Afar, mostram que essa espécie era bípede, mas ainda apresentava características adaptadas para escalada, com um dedão posicionado de forma a facilitar essa atividade. Essa descoberta indica que os homíninios do gênero Australopithecus viveram simultaneamente, levantando questões sobre como esses indivíduos interagiam e competiam por recursos.

Coexistência de espécies homíninas

Os fósseis revelam que o Australopithecus deyiremeda coexistiu com o Australopithecus afarensis, a espécie de Lucy, descoberta em 1974 na mesma região. Essa coexistência sugere que as duas espécies poderiam estar competindo pelos mesmos recursos ou, alternativamente, poderiam ter se adaptado de maneira a evitar tal competição. A pesquisa se baseia na análise de características físicas e dietéticas das duas espécies, que apresentavam modos de locomoção distintos.

De acordo com o paleoantropólogo Yohannes Haile-Selassie, autor principal do estudo, essa descoberta é crucial para entender que a evolução humana não foi linear. “As fases iniciais de nossa evolução não foram lineares, o que significa que não havia somente uma espécie vivendo no momento dado”, afirma Haile-Selassie.

Diferenças dietéticas e adaptações morfológicas

A análise química de amostras de esmalte de dentes de Australopithecus deyiremeda revelou que sua dieta era restrita a plantas de árvores e arbustos, similar a homíninios mais primitivos. Em contraste, a dieta do Australopithecus afarensis incluía uma variedade mais ampla de alimentos, como gramíneas e frutos. Essa diferença em suas dietas pode ter proporcionado uma vantagem competitiva ao Australopithecus afarensis em alguns aspectos.

Além disso, o dedão do pé do Australopithecus deyiremeda tinha uma forma mais primitiva, semelhante à de macacos que sobem em árvores, enquanto o dedão da espécie de Lucy era mais parecido com o dos humanos modernos. Essa adaptação morfológica poderia ter facilitado a escalada em árvores, permitindo que o Australopithecus deyiremeda se movesse de maneira eficaz em ambientes onde havia predadores, como grandes felinos.

Implicações para a compreensão da evolução humana

As descobertas sobre o Australopithecus deyiremeda ampliam a compreensão das interações entre diferentes homíninios e como essas interações influenciaram a evolução. A geoquímica Naomi Levin, coautora do estudo, destaca a importância de entender as diferenças e semelhanças entre essas espécies. “Compreender as diferenças e semelhanças entre esses hominínios próximos é fundamental para entender seu ambiente e como as interações entre eles moldaram sua evolução”, afirma Levin.

Essas novas evidências contribuem para um entendimento mais complexo da evolução humana, sugerindo que, durante milhões de anos, múltiplas espécies de homíninios coexistiram, cada uma com suas próprias adaptações e estratégias de sobrevivência. O estudo de fósseis de 3,4 milhões de anos não apenas revela a diversidade de ancestrais humanos, mas também fornece pistas valiosas sobre como nossa própria espécie, Homo sapiens, pode ter evoluído em um ambiente competitivo e dinâmico.

Fonte: www1.folha.uol.com.br


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