EUA contestam jurisdição de decisões de Alexandre de Moraes; leia documento


Em carta enviada ao ministro do STF, governo americano afirma que decisões brasileiras não têm validade automática nos Estados Unidos

O Departamento de Justiça dos Estados Unidos enviou uma carta oficial ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), para contestar a validade de ordens judiciais brasileiras que exigem ações da plataforma Rumble, sediada nos EUA. O documento, datado de 7 de maio, afirma que decisões do STF contra a empresa não têm efeito imediato em território americano e só podem ser executadas por meio de processos judiciais próprios, conforme a legislação dos EUA.

O ministro Alexandre de Moraes foi notificado por ter descumprido os trâmites legais e ultrapassado a jurisdição brasileira (Foto: Antonio Augusto/ STF)

O centro da disputa envolve determinações de Moraes contra o jornalista Allan dos Santos, foragido nos EUA e investigado por suposta atuação em redes de desinformação. Moraes determinou que a Rumble bloqueasse contas ligadas a ele, suspendesse repasses financeiros e fornecesse dados sobre transações anteriores. A Rumble não cumpriu as ordens, alegando que está sujeita apenas às leis do seu país.

Na carta, o Departamento de Justiça norte-americano diz que “não se posiciona sobre a exequibilidade das ordens no Brasil”, mas destaca que “na medida em que esses documentos ordenam que a Rumble empreenda ações específicas nos Estados Unidos, tais diretivas não são ordens judiciais executáveis nos Estados Unidos”.

A carta também chama atenção para a forma como as notificações judiciais brasileiras foram entregues à empresa, afirmando que elas precisam seguir os canais corretos de cooperação jurídica internacional. O texto cita tratados assinados entre Brasil e EUA, como o Acordo de Assistência Judiciária Mútua (MLAT), e destaca que a natureza dos processos, se cível ou criminal, influencia o trâmite adequado.

A manifestação do governo dos EUA escancara os limites da jurisdição brasileira sobre plataformas internacionais e aumenta a pressão sobre o STF para que adote vias diplomáticas formais quando quiser atingir empresas estrangeiras. Por enquanto, a Rumble continua operando normalmente nos Estados Unidos, sem ter cumprido nenhuma das ordens emitidas por Moraes.

Veja a íntegra da carta enviada pelo Departamento de Justiça dos EUA:

Íntegra da carta enviada à Moraes

Prezado Ministro Alexandre de Moraes,

O Departamento de Justiça dos Estados Unidos refere-se ao processo acima mencionado e apresenta seus cumprimentos ao Supremo Tribunal Federal do Brasil (“Tribunal”).

Dentro do Departamento de Justiça, o Escritório de Assistência Judicial Internacional (“OIJA”) atua como Autoridade Central em conformidade com a Convenção da Haia sobre a Citação e Notificação de Documentos Judiciais e Extrajudiciais em Matéria Civil ou Comercial (“Convenção da Haia sobre Citação”) e a Convenção da Haia sobre a Obtenção de Provas no Exterior em Matéria Civil ou Comercial (“Convenção da Haia sobre Provas”), e o Escritório de Assuntos Internacionais (“OIA”) atua como Autoridade Central dos Estados Unidos no âmbito dos Tratados de Assistência Judiciária Mútua em Matéria Penal (“MLATs”), incluindo o Tratado entre o Governo dos Estados Unidos da América e o Governo da República Federativa do Brasil sobre Assistência Judiciária Mútua em Matéria Penal (“MLAT Brasil-EUA”) e convenções multilaterais que incluem disposições sobre assistência judiciária mútua das quais o Brasil e os Estados Unidos são signatários.

Não nos posicionamos sobre a exequibilidade das diversas ordens e outros documentos judiciais que ordenam que o Rumble atue no território brasileiro, o que é uma questão de direito brasileiro. No entanto, na medida em que esses documentos ordenam que o Rumble empreenda ações específicas nos Estados Unidos, informamos respeitosamente que tais diretivas não são ordens judiciais executáveis nos Estados Unidos.

A lei norte-americana prevê diversas bases para o não reconhecimento, que podem incluir a insuficiência do devido processo legal ou a incompatibilidade com a lei norte-americana que protege a liberdade de expressão. As ordens judiciais brasileiras não são exequíveis nos Estados Unidos sem procedimentos bem-sucedidos de reconhecimento e execução nos Estados Unidos.

Além disso, gostaríamos também de expressar preocupações sobre a forma de entrega de quaisquer documentos no Rumble. Não temos informações suficientes neste momento para determinar o objeto ou a natureza do processo acima mencionado, incluindo se trata-se de uma questão cível ou criminal. No entanto, na medida em que o Tribunal brasileiro busca instruir o Rumble a tomar medidas no Brasil, a entrega de documentos judiciais do Rumble nos Estados Unidos deve ocorrer por meio de um canal apropriado, consistente com o direito internacional consuetudinário e quaisquer acordos aplicáveis entre o Brasil e os Estados Unidos. Esses canais diferem dependendo se o caso é cível ou criminal.

Observamos que seguir os procedimentos adequados para entrega de documentos judiciais não determina, por si só, se tais documentos têm efeito no país de origem, o que é uma questão de domicílio estrangeiro.

Novamente, não nos posicionamos sobre a eficácia das ordens do Tribunal no Brasil como uma questão de direito brasileiro.

Atenciosamente,
Departamento de Justiça dos Estados Unidos
Divisão Civil
Escritório de Assistência Judicial Internacional

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