Caso envolve alegações de amizade entre candidatos e avaliadores, levantando questões sobre discriminação racial

Defensoria Pública pede cancelamento de concurso da USP após revogação da nomeação de Érica Bispo, destacando questões de discriminação racial.
Defensoria Pública pede suspensão de concurso da USP
A Defensoria Pública de São Paulo, em um ofício encaminhado à Universidade de São Paulo (USP) em 1º de novembro, solicitou a suspensão de um concurso para docente na área de literaturas africanas em língua portuguesa. A solicitação surge após a revogação da nomeação de Érica Bispo, que foi aprovada para a vaga em novembro de 2024. A universidade havia aberto a vaga em 30 de setembro, após anular o edital anterior devido a suspeitas sobre a banca avaliadora.
Érica Bispo teve sua nomeação cancelada em março deste ano, com a justificativa de que ela mantinha uma relação pessoal com duas professoras que participaram do processo seletivo. Em resposta a essa acusação, Bispo afirma que foi alvo de discriminação racial, considerando que foi a última candidata negra na concorrência.
A situação no concurso
No documento enviado à reitoria da USP, a Defensoria Pública enfatiza a importância de garantir o direito de defesa de Érica Bispo antes da realização de um novo concurso. A universidade, em resposta, reafirmou que a decisão de revogar a nomeação foi baseada em provas, que foram analisadas pelo seu órgão máximo, o Conselho Universitário.
Um grupo de seis concorrentes questionou a idoneidade do processo, argumentando que Bispo não estaria apta para a função e que suas notas seriam injustificadas, considerando a suposta amizade com a banca. Para apoiar suas alegações, os concorrentes apresentaram fotografias em que Bispo aparece com as professoras, com uma legenda que dizia “entre amigos é muito bom”.
Bispo, por outro lado, defende que o número de especialistas em literaturas africanas no Brasil é reduzido e que é comum que profissionais da área se encontrem em congressos. Uma das concorrentes que questionou o concurso, Larissa Lisboa, professora da Universidade Federal de Lavras (UFLA), alegou que o desempenho de Bispo foi problemático e que as fotos apresentadas como prova indicavam irregularidades no processo.
Reações e posicionamentos
A professora Larissa Lisboa, que se autodeclara mulher negra, expressou sua indignação ao receber a acusação de que seu questionamento tinha viés discriminatório, afirmando que não optou pelas cotas para docentes negros no edital. A Procuradoria da USP sustentou que as imagens apresentadas eram suficientes para confirmar uma relação íntima entre Bispo e as professoras, levando à anulação do concurso.
O Conselho Universitário acatou essa versão em uma votação que resultou em 59 votos a favor e apenas 1 contra, além de quatro abstenções. Contudo, o Ministério Público de São Paulo, ao analisar o caso, não encontrou evidências de má-fé por parte de nenhum agente público envolvido, contradizendo a posição da universidade.
Buscando justiça
Para Érica Bispo, a posição do Ministério Público evidencia que a anulação do concurso foi injusta. Assim, ela e seus advogados estão buscando reverter a decisão na Justiça. A situação gerou grande repercussão, levantando questões sobre a equidade no acesso ao ensino superior e as práticas discriminatórias que ainda persistem em diversos contextos.
A trajetória de Érica Bispo
Érica Cristina Bispo é graduada em letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e doutora em literaturas portuguesa e africanas, com pós-doutorado em literatura guineense. Desde 2015, ela é professora de literatura e língua portuguesa no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio de Janeiro. Várias entidades, incluindo a Associação de Escritores da Guiné-Bissau, expressaram apoio a Bispo, ressaltando a relevância de seu trabalho e sua contribuição ao estudo das epistemologias africanas no Brasil.
Fonte: www1.folha.uol.com.br
Fonte: Folhapress








