O cotidiano de entregador na China: revelações de um best-seller


Hu Anyan narra o trabalho exaustivo em seu livro sobre entregas em Pequim

O cotidiano de entregador na China: revelações de um best-seller
Entregador em Jiozuo, na província de Henan, na China. Fotografia: Xu Hongxing – 2.out.2025/Xinhua — Foto: Entregador em Jiozuo, na província de Henan, na China

Xu Hongxing – 2.out.2025/Xinhua

Hu Anyan revela os desafios do trabalho na China em seu best-seller sobre entregadores em Pequim.

O livro “Faço entregas em Pequim: Memórias de um trabalhador”, de Hu Anyan, apresenta uma visão impactante sobre o trabalho na China, especialmente para os entregadores que operam em um dos maiores e-commerces do mundo. Em 2024, os consumidores chineses gastaram cerca de 15,5 trilhões de yuans, o que equivale a R$ 11,6 trilhões, demonstrando a enormidade do mercado de compras online no país.

Hu Anyan, que se tornou um nome conhecido após o lançamento de seu best-seller, revela em sua obra a rotina desgastante de um entregador em Pequim. Para alcançar seu salário mensal de 7.000 yuans (aproximadamente R$ 5.200), ele enfrentava turnos de 11 horas e precisava faturar 270 yuans por dia. Essa pressão constante o levava a organizar suas entregas com precisão quase militar, sempre ciente de que cada minuto perdido representava uma perda financeira significativa.

A pressão do tempo e o custo humano

A rotina de Hu era marcada por um constante estresse. Ele recebia cerca de 2 yuans por pacote, o que o obrigava a realizar uma entrega a cada quatro minutos, durante um longo período. Esse cenário o forçou a adotar hábitos extremos, como reduzir a ingestão de água e pular refeições para maximizar sua eficiência. Hu descreve um momento em que uma cliente, ao cometer um erro no endereço, exigiu que ele desviasse seu trajeto, refletindo a falta de empatia que muitas vezes permeia as interações entre consumidores e trabalhadores.

O impacto das plataformas digitais na força de trabalho

Um aspecto notável da obra de Hu é a menção ao crescente número de trabalhadores que dependem de ocupações flexíveis. Cerca de 40% da força de trabalho urbana na China é composta por indivíduos que atuam em plataformas digitais. Hu documenta um fenômeno comum: a transição de trabalhadores de empregos fixos para a economia de aplicativos, muitas vezes sem a segurança e os benefícios que os empregos tradicionais ofereciam.

No ano anterior, os entregadores na China enviaram impressionantes 175 bilhões de pacotes, uma média de 124 pacotes por habitante. Essa estatística ilustra a magnitude do setor, mas também levanta questões sobre as condições de trabalho e a saúde mental dos entregadores, que muitas vezes se sentem explorados e esgotados.

A recepção do livro e sua relevância social

Desde seu lançamento em 2023, o livro de Hu Anyan vendeu quase 2 milhões de cópias, conquistando o prêmio de “Escritor do Ano” no Douban, uma plataforma de resenhas respeitada na China. Embora algumas críticas o considerem um relato simples do cotidiano, muitos leitores elogiam sua descrição honesta e crua das dificuldades enfrentadas pelos entregadores. A narrativa direta de Hu capta o desgaste físico e emocional que acompanha esse trabalho, revelando o custo humano por trás da conveniência das compras online.

Reflexões sobre o futuro do trabalho na China

A obra não apenas expõe os desafios do trabalho na China, mas também provoca reflexões sobre o futuro das novas gerações. Hu observa que muitos jovens estão repensando suas vidas e carreiras em uma sociedade em transformação, onde o valor do tempo livre e a busca por significado estão se tornando prioridades. Essa mudança de mentalidade é um reflexo de uma geração que busca uma vida menos pressionada e mais significativa, desafiando as normas tradicionais de trabalho.

Hu Anyan, ao compartilhar suas memórias, não apenas narra sua experiência como entregador, mas também dá voz a milhões de trabalhadores invisíveis que sustentam a economia digital da China. Através de seu livro, ele ilumina a realidade de um setor em crescimento, mas que ainda carece de reconhecimento e valorização. Com isso, ele abre um espaço para diálogos sobre o futuro do trabalho e as condições de vida dos trabalhadores na era digital.

Notícia feita com informações do portal: www1.folha.uol.com.br


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