Câmara Avança com Projeto que Restringe Acesso ao Aborto Legal para Crianças Vítimas de Violência Sexual


Um projeto de decreto legislativo (PDL) que busca suspender uma resolução do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda) sobre aborto legal para crianças e adolescentes vítimas de violência sexual está ganhando força na Câmara dos Deputados. A Resolução nº 258/2024 do Conanda estabelece diretrizes para o atendimento a essas vítimas, mas agora enfrenta forte oposição de parlamentares conservadores.

Aprovado pelas comissões de Previdência, Assistência Social, Infância, Adolescência e Família e de Constituição e Justiça e Cidadania, o PDL nº 3/2025 teve parecer favorável do relator, deputado federal Luiz Gastão (PSD-CE). Gastão argumenta que menores de 16 anos não possuem autonomia para decidir sobre o aborto, defendendo a necessidade de autorização judicial ou apresentação de boletim de ocorrência.

O relator questiona a resolução do Conanda por não estabelecer um limite de tempo para a realização do aborto, alegando que isso poderia permitir o procedimento em gestações avançadas. Ele também critica a dispensa de autorização judicial e a ausência de notificação aos pais ou responsáveis, especialmente em casos de suspeita de violência sexual dentro do ambiente familiar. Segundo Gastão, a medida do Conanda “afronta o direito de acesso do nascituro ao Poder Judiciário”.

Em contrapartida, o Conanda defende que o tempo de gestação não deve ser um impedimento para o aborto legal e que não há necessidade de comunicar o conselho tutelar. A resolução em vigor enfatiza que as equipes de saúde devem seguir parâmetros internacionais e evidências científicas para garantir a segurança da vítima durante o procedimento.

A tramitação do projeto ganhou impulso após um pedido de urgência da deputada Chris Tonietto (PL-RJ), o que pode levar a votação direta no plenário, sem análise de outras comissões. Deputados que apoiam o PDL argumentam que o Conanda “menospreza o poder familiar” e apresenta “interpretações inapropriadas sobre o direito à objeção de consciência”.

A campanha Criança Não é Mãe expressou preocupação com o avanço do PDL, alertando que ele representa um grave retrocesso na proteção da infância. A organização destaca que a resolução do Conanda assegura um fluxo de atendimento claro e humanizado para crianças estupradas, priorizando o cuidado com as vítimas. A campanha ressalta ainda dados alarmantes sobre a mortalidade de meninas e adolescentes devido a complicações na gravidez.

Dados da Associação de Obstetrícia de Rondônia revelam que, em 2023, cerca de 14 mil meninas entre 10 e 14 anos tiveram filhos no Brasil, enquanto apenas 154 tiveram acesso ao aborto legal. Um estudo da Fiocruz Bahia aponta que a maioria dos casos de estupro (67%) entre 2015 e 2019 teve como vítimas meninas nessa faixa etária, sendo que, na maioria das vezes (62,41%), os agressores eram conhecidos das vítimas.

Fonte: http://agenciabrasil.ebc.com.br


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