Mudanças no comportamento dos consumidores e impacto no mercado

Cerca de 53% dos brasileiros que consomem álcool reduziram a ingestão no último ano, refletindo mudanças de comportamento e impacto no mercado.
Aos 23 anos, Gabrielle Ribeiro decidiu parar de consumir bebidas alcoólicas. Reuniu todas as garrafas que tinha em casa e as colocou dentro de um saco de lixo. A influenciadora digital trocou as festas por noites de sono, os dias de ressaca por trilhas matinais e os copos de drinks por suplementos. Perdeu 16 quilos, passou a economizar até R$ 300 por semana e, de quebra, conquistou milhares de seguidores ao compartilhar a sua história nas redes sociais.
Cerca de 53% dos brasileiros que consomem álcool reduziram a ingestão no último ano, segundo o Datafolha. A pesquisa ouviu 1.912 pessoas. Entre os jovens da geração Z, de 18 a 26 anos, apenas 45% afirmam beber — bem menos que nas gerações anteriores, aponta uma pesquisa da MindMiners feita com 3 mil pessoas. O bem-estar, a estabilidade emocional e o controle financeiro estão entre as razões que têm levado muita gente a repensar sua relação com o álcool.
O consumo de cervejas sem álcool no Brasil cresceu mais de 200% entre 2020 e 2023, passando de 197,8 milhões para 649,9 milhões de litros, segundo a Euromonitor. A expectativa é que o volume se aproxime de 1 bilhão de litros em 2025. O país já é o segundo maior mercado mundial de cerveja zero, apontam os dados da World Brewing Alliance (WBA).
Maurício Porto, proprietário do bar Caledonia, já sente os impactos. Ele conta que a procura por mocktails cresceu tanto que o estoque chega a acabar em alguns dias. A carta da casa tem cinco coquetéis sem álcool, preparados com técnicas de infusão de especiarias e clarificação. A indústria também tem se ajustado. A Ambev, maior cervejaria do país, afirma que rótulos como Bud Zero, Corona Cero e Stella Pure Gold têm ganhado força, e a companhia projeta que o segmento de cervejas sem álcool cresça até cinco vezes mais rápido que o das tradicionais até 2028.
Essas transformações mostram que o setor está longe de enfrentar uma crise. Pelo contrário: o novo comportamento do consumidor abriu espaço para inovação, qualidade e novas experiências. O levantamento da MindMiners também relaciona a queda de consumo a questões financeiras. Entre os motivos apontados pelos jovens para reduzir o consumo, aparecem frases como: “Estou gastando muito dinheiro” e “Menos gasto com bebidas”.
A mudança no comportamento dos consumidores não necessariamente representa uma ameaça à indústria de bebidas, mas sim uma reconfiguração do mercado, impulsionada por consumidores mais exigentes, moderados e abertos à experimentação. Dados da Nielsen indicam que o segmento de cervejas sem álcool é o que mais cresce no país, com desempenho anual três vezes superior ao das cervejas tradicionais.
A evolução da carta de mocktails começou com o “Ginger Lemonade”, inspirado no clássico Dark & Stormy, e ganhou força após um campeonato promovido pela Monin, fabricante de xaropes premium. O bar Caledonia também vê oportunidade nessa mudança de consumo, observando que o maior desafio na criação de mocktails é simular a sensação do álcool, não necessariamente o sabor, mas a complexidade e a estrutura que ele confere à bebida.
A Diageo, gigante global de destilados premium, também reforçou seu movimento estratégico. Em setembro de 2024, a empresa comprou a marca de bebidas sem álcool Ritual Zero Proof, expandindo seu portfólio e consolidando sua liderança no mercado de destilados sem álcool. A empresa investe em formação profissional e mantém parcerias com bares que ditam tendências, ajudando a desenvolver novos cardápios e técnicas de coquetelaria.








