Qual é a música?


O medo do PT neste desfile não é o TSE. Multa se paga, recurso se apresenta, narrativa se fabrica. O que não se controla é a vaia. O verdadeiro pavor é a desaprovação popular, ao vivo, em escala mundial e sem roteiro.

Foto: Ricardo Stuckert

A Sapucaí pode se transformar hoje no maior constrangimento público da vida de Lula. E ele sabe disso porque já viveu. Em 2007, no Engenhão, a poucos quilômetros dali, quase 60 mil pessoas vaiaram o presidente na abertura do Pan-Americano. Tentou-se evitar o vexame com um pedido para que as câmeras não o mostrassem. Inútil. O mundo viu. E o constrangimento entrou para a história.

Há uma ironia cruel no cenário. Em 2001, a escola de samba Tradição transformou Silvio Santos em enredo com o emblemático título: “Hoje é domingo, é alegria, vamos sorrir e cantar.” E foi exatamente isso que aconteceu. A Sapucaí parou, mas para aplaudir. Foi consagração popular, espontânea e inequívoca. Talvez esse fosse o sonho íntimo de Lula: viver cena semelhante, ter sua história embalada por esse mesmo título. Mas não deverá ser assim.

Se a reação vier no tom que o Planalto teme, Lula pode acabar protagonista involuntário de um outro clássico da TV brasileira: o “Qual é a música?”. No futebol, virou jargão: “pedir música no Fantástico” é privilégio de quem marca três gols no mesmo palco. Na política, a analogia é menos gloriosa. O primeiro gol foi a vaia ensurdecedora no Pan de 2007, no Engenhão. O segundo veio com Dilma Rousseff, no Maracanã, sob um coro hostil ao entregar a taça à Alemanha. A Sapucaí, hoje, pode completar a trilogia — e transformar o constrangimento em série histórica, transmitida em rede mundial. Então qual é a música?

O TSE não é o maior risco. O que assombra o Planalto é algo mais simples e mais devastador: o som inconfundível de um país que já não canta junto.


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