Memória e arte: a história de uma uruguaia sequestrada na Operação Condor


Francesca Cassariego reflete sobre 40 anos de impunidade e apresenta suas obras na UFRGS

Memória e arte: a história de uma uruguaia sequestrada na Operação Condor
Francesca Cassariego durante sua exposição na UFRGS. Foto: Fernanda Canofre/Folhapress

Francesca Cassariego, sequestrada na infância, inaugura exposição na UFRGS refletindo sobre a Operação Condor.

Francesca Cassariego, artista plástica e professora, foi sequestrada aos três anos de idade em uma ação da Operação Condor, em Porto Alegre, no mês de novembro de 1978. Com o objetivo de usar a memória do horror como matéria de arte, ela inaugura a exposição “Ainda que não recorde” na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), na mesma semana em que se completam 50 anos do início do plano de repressão internacional coordenado entre as ditaduras do Cone Sul.

A exposição e sua temática

A mostra é composta por diversas peças artísticas que ajudam a relatar a ausência de memórias, mas também a impossibilidade de esquecer. “É uma tentativa de reconstruir a ausência de recordações. A gente costuma chamar de recordação aquilo que vê que aconteceu. Como eu não tinha isso, era muito pequena, era como se tivesse acontecido a outra pessoa”, explica Francesca. Essa narrativa é acompanhada por obras que trazem à tona a história de um trauma coletivo.

Uma infância roubada

Francesca e seu irmão, Camilo Casariego, que também foi sequestrado, compartilham a dor de um passado que nunca teve a chance de ser vivido plenamente. Camilo, que na época tinha sete anos, se recorda com clareza do pesadelo vivido. “Não tenho recordações anteriores ao sequestro. É como se minha vida começasse por volta dos 8 anos, quando terminou a minha infância”, relata. A separação da mãe, a militante Lilián Celiberti, e a vida sob o regime militar deixaram marcas profundas em suas vidas.

A Operação Condor e suas consequências

A Operação Condor, patrocinada pelos Estados Unidos durante a Guerra Fria, uniu as ditaduras do Cone Sul em um esforço de repressão. Francesca Lessa, pesquisadora da University College London, afirma que a operação foi responsável por 805 sequestros, dos quais 55 eram crianças e adolescentes. A maioria das vítimas era do Uruguai, onde os regimes começaram a agir com mais intensidade, enquanto os cidadãos argentinos e chilenos enfrentaram repressão imediata.

Pressão pública e busca por justiça

A pressão pública e as campanhas de mobilização ajudaram a trazer à tona muitos casos de violação de direitos humanos. O sequestro de Francesca e Camilo se tornou alvo de uma mobilização social após a descoberta do caso pela imprensa. “Chegamos até aqui porque, antes que a Francesca pudesse se expressar com esse trabalho, houve uma mobilização coletiva e social pela verdade”, afirma Lilián.

Reflexões sobre a impunidade

Hoje, 44 anos após o sequestro, Francesca reflete sobre a impunidade que ainda permeia a história. “Tarda a justiça. Isso deveria ter acontecido antes, foram mais de 40 anos de impunidade total”, diz. Sua arte, portanto, não é apenas um registro do passado, mas um chamado à ação, à verdade e à justiça. “Se amanhã alguém quiser tentar um novo golpe de Estado, sabe que vai haver consequências”.

Francesca Cassariego, por meio de sua exposição, busca não apenas resgatar a memória de sua experiência, mas também garantir que tais atrocidades não se repitam, enfatizando a importância da justiça para a sociedade.

Fonte: www1.folha.uol.com.br

Fonte: Fernanda Canofre/Folhapress


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