Quilombo Sacopã: resistência e luta por memória na zona sul do RJ


Comunidade quilombola enfrenta desafios em meio à urbanização na Lagoa Rodrigo de Freitas

Quilombo Sacopã: resistência e luta por memória na zona sul do RJ
Quilombo Sacopã, um símbolo de resistência cultural. Foto: Eduardo Anizelli/Folhapress

Quilombo Sacopã, último reduto negro da zona sul do RJ, luta por memória e resistência em meio à urbanização.

Quilombo Sacopã: um bastião de resistência na zona sul do RJ

O quilombo Sacopã, localizado na região da Lagoa Rodrigo de Freitas, é o último reduto quilombola na zona sul do Rio de Janeiro. Com uma história que remonta ao final do século 19, a comunidade continua a lutar por reconhecimento e preservação de sua cultura, mesmo em um ambiente dominado por prédios de alto padrão.

Completando um ano de titulação federal pelo Incra, o quilombo Sacopã se consolidou como um símbolo de resistência. José Luiz Pinto Júnior, o Luiz Sacopã, líder da comunidade, expressa a importância dessa conquista: “A certidão não diz que isso é teu, mas garante juridicamente. A especulação chega e quer que a gente vá embora”.

A luta e a história do quilombo

A família Pinto ocupa o território desde 1890, quando um ancestral fugiu de uma fazenda em Nova Friburgo. Desde então, a comunidade enfrentou inúmeros desafios, incluindo remoções forçadas e tentativas de grilagem. No século 20, o grupo tentou garantir sua permanência através de um processo de usucapião, mas enfrentou reveses legais que quase os forçaram a deixar a área.

Luiz recorda que, nos anos 70, enfrentou a reintegração de posse, onde lhe foi dito que teriam 1% de chance de reverter a decisão. A pressão aumentou quando propostas financeiras tentaram comprar o território, mas Luiz se recusou a negociar, afirmando que sua vida e cultura não têm preço.

Desafios contemporâneos e a busca por reconhecimento

Hoje, o quilombo Sacopã enfrenta novas ameaças, não apenas da especulação imobiliária, mas também da incompreensão social. Luiz menciona a ignorância de muitos sobre a natureza do território: “Às vezes me perguntam quanto custa comprar um pedaço do quilombo. Não sabem que não pode vender. O território é da União”.

A titulação trouxe um alívio, mas a luta continua. O espaço ainda é um centro cultural vibrante, onde a comunidade promove rodas de samba e festas, afirmando sua identidade e resistência. Luiz destaca: “Quando você silencia, é tudo que eles querem. O negro tem de se unir e ocupar todos os espaços”.

O futuro e a continuidade da luta

A trajetória de Luiz não é apenas uma luta por terras, mas também por uma voz e um legado. Com 83 anos, ele se preocupa com a continuidade da liderança da comunidade. “Hoje só tenho um filho, o Luizinho. Preciso botar ele no meu lugar. Mas essa coisa de militância não é muito a dele”, admite com um tom de tristeza.

Apesar das dificuldades, o quilombo Sacopã permanece um símbolo de resistência e uma inspiração para outras comunidades. Luiz acredita que a luta pela memória e pela cultura negra é essencial: “A chama não se apaga. Quando viram que nós estávamos resistindo, outros tiveram coragem de dizer: ‘Eu sou descendente de escravos’. O povo quilombola ainda baixa a cabeça para os engravatados. Eu não”.

Fonte: www1.folha.uol.com.br

Fonte: Eduardo Anizelli/Folhapress


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