Pesquisa revela que mulheres negras em insegurança alimentar têm maior probabilidade de baixo peso e obesidade

Estudo mostra que mulheres negras em insegurança alimentar têm 42% mais chances de obesidade e 41% de baixo peso em comparação a homens brancos.
Mulheres negras e insegurança alimentar: um desafio crescente
A insegurança alimentar é um tema que ganha destaque nas discussões sobre saúde pública, especialmente quando observamos a interseccionalidade entre raça e gênero. Um estudo recente, publicado na revista científica Food Security, revelou que mulheres negras em situação de insegurança alimentar têm um risco significativamente maior de apresentar baixo peso ou obesidade. Esse fenômeno, definido como ‘duplo fardo da má nutrição’, demonstra a complexidade das desigualdades alimentares no Brasil.
Dados do estudo e suas implicações
A pesquisa, realizada por instituições como UFPB, UFRN e USP, analisou dados de mais de 46 mil participantes do Inquérito Nacional de Alimentação, parte da Pesquisa de Orçamentos Familiares de 2017-2018 do IBGE. Os resultados mostraram que mulheres negras em insegurança alimentar têm 42% mais chances de serem obesas e 41% mais chances de estarem abaixo do peso, quando comparadas a homens brancos em situação de segurança alimentar, grupo controle do estudo. Em comparação, mulheres brancas em insegurança alimentar apresentaram 40% mais chances de obesidade.
O professor Sávio Gomes, um dos autores do estudo, enfatiza que esse modelo estatístico revela que ser mulher, negra e estar em insegurança alimentar potencializa as chances de malnutrição. Isso indica que a saúde dessas mulheres deve ser uma prioridade nas políticas públicas de alimentação.
O contexto alimentar no Brasil
O Brasil tem passado por um aumento preocupante nos índices de obesidade, especialmente entre grupos vulneráveis. Em um período de 17 anos, o número de obesos no país dobrou, enquanto o sobrepeso cresceu 44%, segundo dados do Ministério da Saúde. Este crescimento está associado ao consumo crescente de alimentos ultraprocessados, que são mais acessíveis e frequentemente mais baratos, mas que trazem riscos à saúde.
Dados da Pesquisa de Orçamentos Familiares indicam que o aumento das taxas de obesidade é mais acentuado entre a população negra e indígena, especialmente em áreas rurais e nas regiões Norte e Nordeste do Brasil. Isso ilustra uma realidade alarmante onde a segurança alimentar está profundamente entrelaçada com questões de raça e classe social.
Racismo alimentar e suas consequências
Historicamente, mulheres negras enfrentam barreiras significativas no acesso a alimentos saudáveis. O conceito de ‘racismo alimentar’ emerge nessas discussões, onde a privação do direito de escolha de alimentos saudáveis é uma realidade. A filósofa Djamila Ribeiro destaca que a alimentação precária e a fome afetam desproporcionalmente a população negra e periférica, refletindo uma estrutura social desigual.
O médico Llaila O. Afrika também aborda essa questão, referindo-se aos ‘desertos alimentares’, onde opções saudáveis são escassas, forçando comunidades vulneráveis a depender de alimentos ultraprocessados.
Propostas para políticas públicas
Diante desses dados, o estudo sugere que políticas públicas direcionadas à segurança alimentar devem priorizar mulheres negras. É crucial que as ações de combate à fome e à obesidade sejam integradas, considerando não apenas a renda e a escolaridade, mas também a raça e o gênero. A interseccionalidade, conceito que busca entender as múltiplas formas de opressão, deve guiar a formulação de políticas que atendam às necessidades específicas desses grupos.
Conclusão
A pesquisa traz à tona a urgência de uma abordagem mais inclusiva nas políticas de alimentação no Brasil. O reconhecimento das particularidades enfrentadas por mulheres negras em situação de insegurança alimentar é essencial para a construção de um sistema alimentar mais justo e equitativo. Com uma agenda interseccional, os pesquisadores pretendem expandir o estudo para incluir outras identidades, como pessoas trans, ampliando assim o entendimento sobre as desigualdades alimentares no país.
Fonte: www1.folha.uol.com.br
Fonte: Aline Bispo/Folhapress








