Restos mortais encontrados na Capela dos Aflitos lançam luz sobre a história de violência contra afrodescendentes em São Paulo

Ossadas encontradas em São Paulo reforçam a história de violência contra afrodescendentes na Liberdade.
Descoberta arqueológica na Capela dos Aflitos revela violência escravocrata
A recente descoberta arqueológica na Capela dos Aflitos, localizada no bairro da Liberdade, São Paulo, traz à tona a brutalidade da violência escravocrata que marcou a história da região. Durante escavações realizadas em 19 de novembro de 2025, foram encontrados restos mortais que podem pertencer a um grupo de escravizados negros, reforçando a narrativa de sofrimento e opressão vivida por esses indivíduos no Brasil.
As escavações, coordenadas pelo arqueólogo Paulo Zanettini, revelaram ossadas que pertencem a 5 a 10 pessoas, embora a quantidade exata ainda esteja sendo determinada. O local já era reconhecido como um antigo cemitério de condenados à pena capital, onde escravizados fugitivos eram executados e sepultados. A Capela dos Aflitos foi erguida em 1779, em uma área que anteriormente abrigava o Campo da Forca, onde ocorria o enforcamento de pessoas condenadas.
Contexto histórico do bairro da Liberdade
Historicamente associado à imigração japonesa, o bairro da Liberdade esconde uma narrativa complexa de violência e exclusão. Entre 1765 e 1874, o local foi palco de execuções, e aqueles que não eram completamente mutilados eram sepultados nas proximidades da capela. A descoberta atual soma-se a uma pesquisa anterior de 2018, que já havia encontrado restos mortais de outras oito pessoas no mesmo local. Esses achados são fundamentais para compreender a história de opressão e resistência da população negra na cidade.
Análises em laboratório e respeito à ancestralidade
Os restos mortais encontrados estão sendo analisados no Laboratório de Arqueologia e Antropologia Ambiental e Evolutiva da Universidade de São Paulo (USP). O arqueogeneticista Tiago Ferraz expressou a intenção de conduzir a pesquisa com sensibilidade, buscando respeitar a memória das comunidades negras ligadas à Liberdade antes de realizar as análises de DNA. A decisão de retirar os restos mortais do local foi tomada em conjunto com lideranças comunitárias, visando preservar a dignidade dos antepassados.
Repercussão acadêmica e cultural
A descoberta já começa a ressoar no meio acadêmico e entre historiadores. Especialistas afirmam que o retorno a episódios de violência do passado é crucial para as políticas de memória contemporâneas. O professor Paulo Henrique Martinez, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), destaca a importância desses achados para a visibilidade da história afrodescendente, que frequentemente é apagada ou esquecida na narrativa histórica dominante.
A Capela dos Aflitos e sua importância
A Capela dos Aflitos, dedicada a Nossa Senhora dos Aflitos, é um símbolo da luta por reconhecimento da história dos marginalizados. Com a restauração em andamento, a capela está temporariamente fechada ao público, mas as escavações iluminam o passado sombrio do bairro. A ideia é que, após a análise, os restos mortais sejam reenterrados no local, respeitando a sagrada memória dos indivíduos ali sepultados.
Conclusão
Essas descobertas não apenas resgatam a história de dor e sofrimento, mas também promovem um debate sobre a reparação e reconhecimento da ancestralidade das comunidades afrodescendentes. A luta pela memória e pela verdade continua, e cada novo achado arqueológico é um passo importante nessa jornada.
Fonte: www1.folha.uol.com.br
Fonte: Divulgação/Zanettini Arqueologia








