Antonio Risério analisa a negritude de Pelé em livro controverso


Obra provoca reflexões sobre a vida do atleta e questões raciais no Brasil

Antonio Risério analisa a negritude de Pelé em livro controverso
Antonio Risério debate a vida de Pelé em sua nova obra. Foto: Xinhua/Imago/Zumapress

A nova obra de Antonio Risério analisa a negritude de Pelé e provoca reflexões sobre racismo no Brasil.

A nova obra de Antonio Risério, “Pelé – o Negão Planetário”, não se limita a ser mais uma biografia do ícone do futebol, mas se propõe a examinar a vida e a carreira do atleta sob uma perspectiva crítica, abordando questões de negritude e identidade no Brasil contemporâneo. O livro é relevante em um contexto onde a discussão sobre a raça e a identidade cultural tornou-se cada vez mais urgente.

Uma perspectiva inovadora sobre Pelé

Nas primeiras páginas, Risério afirma que seu objetivo é explorar a figura de Pelé como um meio de refletir sobre a realidade brasileira. Ele destaca que a literatura sobre futebol muitas vezes carece de análises mais profundas, e sua publicação se junta a um pequeno número de obras que tentam preencher essa lacuna.

Apesar de algumas passagens que oferecem reflexões interessantes, o livro não alcança a profundidade de obras anteriores como “Veneno Remédio”, de José Miguel Wisnik, e “Dando Tratos à Bola”, de Hilário Franco Júnior. No entanto, a iniciativa de Risério é louvável, especialmente em um contexto onde a discussão sobre a negritude e a representação negra no esporte ainda é escassa.

Reflexões sobre a negritude e o racismo

Um dos ensaios de destaque é “A Escola Brasileira de Futebol”, no qual Risério traça paralelos entre Pelé, o boxeador Muhammad Ali e o bailarino Vaslav Nijinsky. A análise do autor se aprofunda na questão da identidade negra, ressaltando que antes de Pelé, muitos jogadores tentavam esconder suas origens afrodescendentes. O exemplo de Arthur Friedenreich, que alisava seus cabelos para não ser identificado como mulato, é utilizado para ilustrar a dificuldade que atletas negros enfrentavam em um ambiente racista.

A obra também levanta questões sobre como Pelé se posicionava em relação ao racismo. Risério argumenta que, apesar de não fazer discursos explícitos contra a discriminação racial, a presença de Pelé em campo foi uma forma de resistência e um símbolo de orgulho para muitos negros brasileiros. O autor cita a admiração de figuras como Nelson Mandela e Desmond Tutu, que viam em Pelé uma representação de uma vitória negra.

Críticas e controvérsias

Entretanto, a obra não é isenta de críticas. O excesso de digressões e a inclusão de temas que se afastam do foco principal geram um certo desconforto. Risério, por exemplo, critica o que chama de “praga do identitarismo woke”, desviando a atenção do leitor das questões centrais que envolvem Pelé e sua trajetória.

Além disso, o autor menciona polêmicas relacionadas à sua própria experiência com a mídia, incluindo um episódio em que a Folha de S.Paulo teria censurado sua opinião sobre racismo. Essa experiência, embora relevante, acaba por desviar a atenção do tema principal do livro.

Conclusão

Em suma, “Pelé – o Negão Planetário” é uma obra que oferece um olhar interessante sobre a relação entre Pelé e a negritude no Brasil, mas que, ao mesmo tempo, se perde em questões menos relevantes. A leitura é recomendada a quem busca entender melhor a complexidade da identidade negra no Brasil, embora seja necessário estar ciente das críticas que a obra suscita. A capacidade de Risério de provocar reflexões é inegável, mas a execução do seu projeto poderia ter sido mais focada e menos dispersiva.

Fonte: www1.folha.uol.com.br

Fonte: Xinhua/Imago/Zumapress


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